Uma empresa pode ter uma ideia inovadora, já ter realizado alguns testes e acreditar que está pronta para buscar recursos. Ainda assim, antes de financiar o projeto, a instituição de fomento precisa entender em qual estágio de desenvolvimento a tecnologia realmente está. É justamente essa análise que o TRL ajuda a fazer.
A sigla aparece com frequência em editais, chamadas de inovação e projetos de pesquisa e desenvolvimento. No entanto, muitas empresas ainda têm dificuldade para explicar qual é o nível atual de maturidade da tecnologia ou qual estágio pretendem alcançar com os recursos solicitados.
Essa definição influencia diretamente o enquadramento do projeto. Afinal, cada oportunidade costuma apoiar determinadas etapas do desenvolvimento tecnológico.
Por isso, compreender o que é TRL ajuda a escolher a fonte de fomento mais adequada, construir um escopo possível e demonstrar com clareza o avanço esperado.
O que é TRL?
TRL é a sigla para Technology Readiness Level. Em português, o termo significa Nível de Maturidade Tecnológica.
A escala avalia quanto uma tecnologia avançou desde a pesquisa inicial até sua aplicação em um ambiente real. Para isso, considera os testes, as validações e os resultados já obtidos ao longo do desenvolvimento.
O modelo possui nove níveis. O primeiro representa o estágio mais inicial da pesquisa, enquanto o nono indica uma tecnologia comprovada em operação.
A NASA consolidou esse sistema de avaliação e apresenta oficialmente os nove níveis da escala.
Embora o modelo tenha surgido no setor aeroespacial, diferentes segmentos passaram a adotá-lo. Hoje, bancos, empresas, universidades e agências de fomento utilizam a escala para analisar a maturidade tecnológica de projetos.
No Brasil, a FINEP inclui esse critério em diversas chamadas. Em 2026, por exemplo, a seleção voltada a tecnologias digitais avançadas definiu atividades entre os níveis TRL 3 e TRL 8. Além disso, a chamada estabeleceu condições específicas para projetos que pretendiam alcançar o nível 8. A orientação consta no material oficial da chamada.
Como funcionam os nove níveis de maturidade?
Os nove níveis representam a evolução de uma tecnologia. No entanto, a empresa precisa sustentar cada estágio com evidências concretas, e não apenas com uma declaração.
Nível 1: princípios básicos observados
É o início da pesquisa. Nesse estágio, a equipe identifica princípios científicos, mas ainda não estruturou uma aplicação tecnológica.
Nível 2: conceito tecnológico formulado
A empresa ou instituição começa a visualizar possíveis aplicações para o conhecimento disponível. Porém, a ideia ainda permanece no campo conceitual e conta com pouca comprovação experimental.
Nível 3: prova de conceito
A equipe realiza os primeiros testes para verificar se o princípio da tecnologia funciona. Dessa forma, começa a validar experimentalmente a hipótese.
Nível 4: validação em laboratório
A equipe desenvolve e testa os componentes da tecnologia em ambiente controlado. Ainda assim, o sistema permanece distante das condições reais de uso.
Nível 5: validação em ambiente relevante
A empresa testa a tecnologia em condições mais próximas da realidade. Com isso, aumenta o nível de integração entre os componentes e obtém evidências mais próximas do uso esperado.
Nível 6: demonstração de protótipo
A equipe demonstra um protótipo mais completo em ambiente relevante. Nesse estágio, já consegue avaliar melhor o desempenho e os riscos da solução.
Nível 7: demonstração em ambiente operacional
A empresa testa o protótipo em condições reais de operação. Consequentemente, passa a reunir evidências mais robustas sobre o funcionamento da tecnologia.
Nível 8: sistema completo e qualificado
A tecnologia chega a uma versão completa e supera os testes necessários. Dependendo do setor, essa etapa também pode incluir certificações e homologações.
Nível 9: tecnologia comprovada em operação
A solução funciona efetivamente no ambiente para o qual a empresa a desenvolveu. Portanto, alcançou o maior nível de maturidade da escala.
Por que a maturidade tecnológica importa na captação?
O TRL ajuda a instituição financiadora a entender o que a empresa já desenvolveu e quais etapas ainda precisa executar.
Além disso, a escala permite avaliar se a proposta corresponde ao objetivo do edital.
Uma chamada direcionada à pesquisa aplicada, por exemplo, pode financiar provas de conceito e validações laboratoriais. Por outro lado, uma linha voltada à introdução de tecnologias no mercado pode exigir protótipos mais avançados.
Em 2026, uma seleção da FINEP voltada à economia circular e às cidades sustentáveis estabeleceu, como regra geral, atividades entre os níveis TRL 3 e TRL 7.
A chamada também definiu condições específicas para projetos que incluíssem o nível 8. Esses parâmetros estão detalhados no documento oficial da seleção.
Isso mostra que o nível de maturidade não funciona apenas como uma informação complementar. Na prática, ele pode determinar se a proposta atende ou não aos critérios de uma oportunidade.
Se a tecnologia está no TRL 2, mas o edital financia projetos a partir do nível 4, a instituição pode considerar a proposta imatura para aquela chamada.
Da mesma forma, uma tecnologia que já chegou ao mercado e comprovou seu funcionamento pode não apresentar o risco tecnológico exigido por determinadas linhas.
Como identificar o estágio correto de um projeto?
O primeiro passo é reunir evidências sobre o que a empresa já realizou.
Para isso, a equipe deve observar quais componentes desenvolveu, onde conduziu os testes e quais resultados documentou.
Relatórios, registros de laboratório, protótipos, ensaios e demonstrações ajudam a comprovar o estágio de maturidade. Entretanto, ter um protótipo não significa automaticamente ocupar um nível elevado. A empresa também precisa considerar quanto o ambiente de teste se aproxima das condições reais de operação.
Depois, a organização deve definir o nível que pretende alcançar ao final do projeto. Esse ponto de chegada precisa corresponder às atividades, aos recursos e ao tempo disponíveis.
A transição deve ser realista. Avançar do TRL 3 para o nível 4, por exemplo, exige atividades diferentes da passagem do nível 6 para o nível 7.
Consequentemente, cronograma, orçamento, equipe e indicadores precisam refletir essa diferença.
O que acontece quando a empresa informa o nível errado?
Superestimar a maturidade pode gerar um projeto com atividades incompatíveis com a realidade. Além disso, o avaliador pode perceber que as evidências apresentadas não sustentam o estágio informado.
Por outro lado, subestimar a tecnologia pode levar a empresa a buscar uma linha voltada a etapas que ela já superou.
Como resultado, o projeto pode incluir atividades repetidas ou incompatíveis com o tipo de apoio oferecido.
Também é importante não usar o TRL como única medida de qualidade de uma inovação.
A escala indica maturidade tecnológica, mas não mede potencial de mercado, viabilidade econômica ou impacto da solução. Portanto, a empresa precisa analisar esses elementos separadamente.
Como usar essa análise na estratégia de inovação?
Compreender o que é TRL ajuda a empresa a organizar melhor o caminho entre pesquisa, validação, protótipo e aplicação real.
A escala também orienta a escolha de editais, a construção do orçamento e a definição das entregas. Dessa maneira, a organização reduz o risco de buscar recursos incompatíveis com o estágio atual da tecnologia.
Mais do que preencher um campo do formulário, identificar corretamente a maturidade permite construir um projeto coerente com aquilo que a empresa já desenvolveu e com o avanço que pretende financiar.
No curso presencial Captação de Recursos Financeiros para Inovação, da FS Innovation, esse é um dos conhecimentos necessários para transformar ideias em projetos financiáveis.
Afinal, captar recursos não começa com o formulário. O trabalho começa quando a empresa entende onde sua tecnologia está, aonde pretende chegar e de quais recursos precisará para percorrer esse caminho.



